1.12.10

Querida Verónika. número-um.






Tenho a certeza que te enviei três e-mails. Hoje sei o porquê de nunca ter obtido resposta. Sei que os enviei, não queria que fossem meros rascunhos da minha vida, como tantos outros, como tantas palavras inacabadas no meio das confusões de letras, da sua deslexia e da inacapacidade de junção de ideias coerentes.
Como estás? Tenho estado preocupada contigo todos os dias; não é que o diga diariamente. Mas penso. Penso sempre, com a obsessão de pensar ainda mais e de atingir todos os limites do pensamento. O teu irmão dizia que pensava demasiado, que um dia eu iria querer viver um dia de cada vez como ele faz. Ou diz que faz. Será que vivemos sempre um dia de cada vez? Nem quero entrar por ai, não sou dada à metafísica. Tal coisa repugna-me.
É estranho não saber o que vais fazer amanhã. Não sei nada de ti desde Setembro; é como viver na pura ignorância de ser um ser humano. Por vezes contam-me que te viram, mas nunca me sabem dizer se chegas aos devidos locais em segurança. Compreendo que achas que a minha preocupação para contigo e a tua respectiva família composta por quatro membros, incluíndo tu, se esteja a desvanecer.
Hoje está frio, escrevo para ti com as minhas mãos geladas, como sempre, como se o sangue não corresse nas minhas veias. É engraçado que, sempre que dava as mãos ao teu irmão, elas ficavam suadas e quentes. Não te garanto que seja o calor humano, mas na verdade as minhas mãos nunca ficavam suadas por nada.
Tenho saudades tuas. Do teu sorriso com as tuas expressões mais engraçadas, desde as rugas que crescem na tua testa, aos olhos em bico e da tua dentição branca que nem açucar. Também tenho saudades do teu irmão, sem qualquer tipo de romance mas sim irmandande. Irmão pequeno, febril, temperamento bastante fraco. Tinha que estar sempre presente, recorria-me a todas as horas.
Não tenho tido muitos diálogos inteligentes. Maior parte deles eram com o teu irmão, e ganhava quase sempre. Senão sempre. Tenho a certeza que tal não se devia ao facto de eu possuir um grande auge para capacidade de argumentação, mas tudo o que dizia era o correcto. Ele procurava o correcto comigo.
Não tenho saudades de nada. Tenho tudo, todas as memórias. Talvez tudo seja nada...
Ando extremamente ocupada. O 12º ano de escolaridade está a dar cabo de mim; tenho tantas ideias e nenhuma delas enquadra-se ao que tenho que estudar obrigatóriamente todos os dias. Por isso, claro que acabo sempre por desistir delas. Falho sempre um bocado antes de conquistar seja o que for.
O tempo esmaga-me. Maltida hora que decidiram inventar os relógios, os ponteiros, os números e até mesmo as milésimas de segundo. Afirmo sempre não ter tempo para nada, nem mesmo para te escrever. Quem me vê na rua, fica sempre apático. Ou já não me viam à anos ou estou completamente mudada. Hoje sinto-me velha. Vejo-me ao espelho, e sinto rugas e cabelos brancos. Não tenho 17 anos, mas sim 27. Estou parada no tempo, ele prende-me com uma força constante e não consigo sair dele. Talvez porque não faço grande esforço.
Nunca mais vou prometer que amanhã será um dia diferente. Todos os dias são iguais, os relógios dão sempre as mesmas horas, os ponteiros apontam sempre para os mesmos números, os rostos são sempre os mesmos: uns com cara de indifrença, uns com sorrisos falsos completamente trágicos, outros afirmam felicidade inacabada. As roupas são as mesmas, assim como as pessoas, damos os mesmos paços: uns mais longos, outros mais curtos.
Acho que hoje, este será o meu último cigarro.
Quero que digas ao teu irmão que aprendi a andar devagar.